LUZ MARINA TOLEDO

Psicanalista
e Especialista em Terapia de Casal e de Família.

LUZ MARINA TOLEDO

Psicanalista e Especialista em Terapia de Casal e de Família.

Falar sobre prevenção do suicídio é falar sobre sofrimento humano, mas também sobre possibilidades de cuidado, acolhimento e esperança.

O suicídio não pode ser explicado por uma única causa. Trata-se de um fenômeno complexo e multifatorial, que envolve a interação de fatores psicológicos, sociais, culturais, biológicos e ambientais.

Pessoas que vivem com depressão e outros transtornos mentais, que fazem uso problemático de álcool ou outras substâncias, ou que atravessam situações de intenso sofrimento emocional podem apresentar maior vulnerabilidade. Experiências como luto, abandono, separações, traições, violência, perdas significativas e isolamento social também podem contribuir para esse sofrimento, especialmente quando a pessoa sente que precisa enfrentá-lo sozinha.

Isso não significa que alguém que passe por essas experiências necessariamente desenvolverá comportamento suicida. Significa que precisamos estar atentos à maneira como cada pessoa consegue — ou não — lidar com aquilo que está vivendo.

Quando o sofrimento parece não ter saída

Em situações de sofrimento psíquico intenso, a pessoa pode perder temporariamente a capacidade de enxergar alternativas para aquilo que está vivendo. A desesperança pode ocupar um espaço tão grande que o futuro parece deixar de existir.

É justamente nesse momento que a presença do outro pode fazer diferença.

Não se trata de ter a frase perfeita, oferecer soluções rápidas ou dizer “você precisa reagir”. Muitas vezes, o primeiro cuidado é simplesmente oferecer uma presença verdadeira: escutar sem julgar, não minimizar a dor e levar a sério aquilo que está sendo dito.

Perguntar, acolher e permanecer próximo pode abrir uma possibilidade onde antes a pessoa enxergava apenas solidão.

Um problema de saúde pública:

No Brasil, o Ministério da Saúde já apontou registros próximos de 14 mil mortes por suicídio ao ano — uma média de aproximadamente 38 a 44 mortes por dia.

Os números mostram por que a prevenção não pode ficar restrita aos consultórios. Ela precisa envolver famílias, escolas, empresas, comunidades, serviços de saúde e a sociedade como um todo.

Também precisamos estar atentos a comportamentos de risco. Atitudes como dirigir perigosamente, consumo descontrolado de álcool, impulsividade e exposição recorrente a situações perigosas podem aparecer entre os sinais que merecem atenção. Entretanto, não é possível concluir, apenas pela presença desses comportamentos, que exista intenção suicida. Eles precisam ser compreendidos dentro do contexto global daquela pessoa.

Prevenir também é construir conexão

Uma sociedade comprometida com a prevenção precisa aprender a falar sobre sofrimento emocional sem julgamento.

Quando alguém demonstra desesperança, isolamento, perda de interesse pela vida, abandono de projetos futuros ou verbaliza pensamentos relacionados à morte, não devemos tratar essas manifestações como exagero, fraqueza ou tentativa de chamar atenção.

Precisamos escutar.

Escuta ativa não significa assumir sozinho a responsabilidade pela vida daquela pessoa. Significa acolher o sofrimento e ajudá-la a chegar até quem poderá oferecer o cuidado necessário.

A rede de proteção pode envolver familiares, amigos e pessoas de confiança, mas também profissionais de saúde mental e serviços especializados. Psicoterapia e acompanhamento médico, quando indicados, podem ajudar a pessoa a compreender seu sofrimento, desenvolver recursos emocionais e encontrar novas maneiras de enfrentar crises e adversidades.

Setembro Amarelo: precisamos falar durante todo o ano

Setembro nos convida a falar sobre prevenção do suicídio, mas o cuidado não pode terminar quando o mês acaba.

Talvez uma das perguntas mais importantes que podemos fazer a alguém que está sofrendo seja também uma das mais simples:

“Como você está de verdade? Eu posso te ouvir.”

Não precisamos ter todas as respostas para oferecer presença.

Às vezes, antes de conseguir pedir ajuda, uma pessoa precisa encontrar alguém disposto a perceber que ela precisa ser ajudada.

Prevenir o suicídio é responsabilidade coletiva. É combater o estigma, reconhecer sinais de sofrimento, fortalecer vínculos e facilitar o acesso ao cuidado profissional.

Porque quando o sofrimento encontra escuta, acolhimento e tratamento, outras possibilidades podem voltar a existir.

Onde buscar ajuda: CAPS e Unidades Básicas de Saúde (UBS); serviços de urgência e emergência; SAMU, pelo 192; e Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188, gratuitamente. Em situações de risco imediato, a pessoa não deve permanecer sozinha e deve ser encaminhada para atendimento de urgência.

Luz Marina Toledo

Psicanalista especialista em relacionamentos.

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